De todas as perversidades culturais ditas por aí, as que envolvem o rock são as mais cruéis. Para alguns, esse estilo de música popular, surgido em algum momento da primeira metade do século XX, está “aposentado”, “datado” ou até mesmo “sepultado”. A boa notícia, no entanto, é que o rock não está em crise… o rock é a crise! Essa condição irrefutável é endossada pelo som vigoroso, poético e ponta firme dos brasilienses da banda BASE

Portanto, se prepare para aumentar o volume, vem comigo e no caminho eu te conto essa história!

Uma trajetória BASEada em tecnologia, dedicação e talento

A banda BASE é formada por Paul Hodel (vocal), Leonardo Krieger (baixo), Fábio Krieger (bateria) e Ian Bemolator (guitarras) — este último, um lendário “gladiador” dos bons tempos de Guitar Battle. A banda foi oficialmente formada em 2017, mas os talentos dos integrantes já se encontraram em outros projetos. Paul, Léo e Fábio gravaram dois álbuns em inglês (Silent Seasons – 2007 e Leave The Future Behind – 2008), com a banda Janice Doll, criada em 2003. 

Em 2013, Paul, que também tem cidadania francesa, foi para os EUA e depois para a Inglaterra. Três anos mais tarde, o vocalista conheceu o conterrâneo Ian, que também havia saído do Brasil e se casado com uma polonesa. Trabalhando em parceria, a dupla criou o material do primeiro EP da BASE, A Vida é Um Jogo, lançado em 2017.

Capa de A Vida é um Jogo, EP de estreia da banda BASE
EP de estreia da banda BASE: é rock para quem realmente gosta de rock (Imagem/Divulgação)

Como os caras estavam morando em lugares diferentes do mundo, a solução foi trabalhar via Skype. Em meados de 2017, no entanto, Ian e Paul voltaram ao Brasil e passaram 30 dias trabalhando intensamente no estúdio Blue Records, no DF. 

O encontro presencial dos músicos em Brasília foi coroado com a gravação de dois clipes. A produção do vídeo de A Vida é um Jogo contou com o apoio do Meliá Brasil 21 – hotel que cedeu o heliporto para a gravação. 

O outro clipe contou com o respaldo da Terracap, órgão do governo de Brasília. Dê o play e se esbalde com a bela fotografia do vídeo de Herói

Banquinhos, violões e muito rock and roll

Batidas acústicas, acampamentos, conversas intelectuais, filosofia e muita poesia são as pedras angulares do rock brasiliense. Cientes dessa tradição, mas sem a pretensão de pegar para si a cafonérrima pecha de “herdeira do bastião do rock brasiliense”, a BASE lançou um trabalho acústico.

Batizado como Um Novo Recomeço, o disco foi gravado no Refinaria Estúdio, em Brasília, no mês de julho de 2022. Com produção musical de Guilherme Negrão, o trabalho apresenta versões desplugadas para músicas do EP A Vida é Um Jogo, bem como faixas inéditas. A cereja do bolo são as participações especiais de Pablo Fagundes (gaita), Tom Suassuna (violino) e Paulo Chaves (backing vocals).

Novo disco da BASE: aula de bom gosto, feeling e personalidade (Imagem/Divulgação)

Antes de passarmos um raio-x em algumas faixas do disco, é necessário destacar a performance vocal de Paul Hodel. Em outras palavras, nossos ouvidos são brindados com o trabalho de um excelente vocalista que descarta imitar Renato Russo, Dinho Ouro Preto, Rodolfo Abrantes, Jander Bilaphra, Bernardo Mueller, Jessé e vários outros vocalistas extraclasses que colocaram Brasília no mapa do pop rock nacional. Com seus drivers e interpretações, capazes de passear por experiências sensoriais que vão do senso de urgência à sutileza romântica, Hodel mostra originalidade, domínio técnico e lirismo.

Um Novo Recomeço: o resgate da alquimia poética musical do rock brasileiro

O disco abre com a distópica Inevitável. Em tempos populistas, desses que prometem trazer um passado que não aconteceu para um futuro que nunca chega, a letra dessa música se encaixa como uma luva. 

Com pinta de hit, essa canção deve ser ouvida com as portas da percepção escancaradas. Ou seja, antes de dar play, afaste os pensamentos infantilizados de sua mente. Se assim for, a semiótica presente nos versos te conduzirá rumo à odisseia de uma geração que vem envelhecendo cheia de incerteza, temores e insegurança. 

No que diz respeito à parte instrumental, a banda entrega uma reluzente alquimia sonora. Para começar, a cozinha dos irmãos Krieger magistralmente usa o tempero mundialmente difundido pelo pós-punk made in Manchester dos Smiths. Em sintonia com o vigoroso violão de acordes abertos de Bemolator, a gaita de Pablo Fagundes conduz o arranjo com destreza de Ayrton Senna.

Já na faixa Vale a Pena, o otimismo dá o tom da letra. Afinal, o agora é o tempo ideal para viver. No fim das contas, é preciso apenas ter calma para escolher quais lutas você vai lutar na arte que é viver. Sobre os arranjos, é impossível evitar o arrebatamento do violino de Tom Suassuna. No movimento de contraponto surpreendente, Suassuna injeta doses da melancolia saudável dos subúrbios londrinos do The Cure nas “ruas ‘que’ têm cheiro de gasolina e óleo diesel” frequentadas pela banda BASE.

Solos de guitarra (ops, violão) que conquistam

Ian Bemolator é um guitarrista com alto nível de apuro técnico. Traduzindo: o cara toca muito! Porém, trabalhar no modo acústico é desafiador para todo guitar hero. Afinal, por mais que sejam instrumentos de cordas bem semelhantes, guitarra e violão possuem lá suas singularidades e idiossincrasias. Ou seja, são formas sui generis de se fazer música.

No registro desplugado para a faixa Enquanto, Ian mostra versatilidade e sabedoria. Nesse sentido, ele conseguiu adaptar para o violão um arranjo que funciona de maneira cirúrgica na guitarra. Ao longo da música, temos riffs e pontes e um solo com uma pegada gypsy que, guardadas as devidas proporções, resgata a lendária pegada de Uli Jon Roth. 

BASE: uma banda providencial na cena do rock brasileiro

Longe da grande mídia, o rock nacional parece vivenciar mais uma temporada no underground. Isso não quer dizer, no entanto, que os talentos estão fadados ao ostracismo. Com a força democrática da internet, só não consome música boa quem realmente não quer. E de qualidade, a BASE entende muito bem!

Mantendo crenças firmes no propósito de criar obras que promovem a conexão entre música e alma, o quarteto brasiliense acaba sendo um ponto de exclamação num deserto de reticências. Com dois trabalhos lançados, esse grupo, formado por músicos experientes e talentosos, dá indícios de que sabe aonde quer chegar. Nesse sentido, a caminhada da banda BASE acabou de começar, mas já é possível pensar nessa banda adentrando os portais do panteão do rock brasileiro.