Antes de começar nosso papo sobre o disco, não posso deixar de comentar que o termo doble chapa é usado nas fronteiras do Sul do país para distinguir o indivíduo que tem dupla nacionalidade. Regionalmente, diz-se daquele que é “filho de pai brasileiro e mãe oriental” (ou vice-versa).

Pois bem: surgida na cidade de Pelotas, ao extremo Sul do Brasil, em 2007, banda Pimenta Buena é formada por três instrumentistas brasileiros e um vocalista uruguaio. Logo, André Chiesa (bateria), Daniel Finkler (baixo), João Corrêa (guitarra) e Vicente Botti (vocal) formam o quarteto mais doble chapa do rock feito na América Latina!

A banda Pimenta Buena é expoente do rock independente

Pimenta Buena, uma banda doble chapa (Imagem/Divulgação)

Em 2019 a Pimenta lançou Disco 3, o terceiro trabalho de sua carreira. O álbum faz parte da linhagem do rock, mas também apresenta referências de música erudita, tango, pop, world music, entre outros estilos que fazem parte da bagagem dos integrantes da banda. No final das contas, as nove faixas autorais simbolizam um mergulho às cegas na identidade erudita e progressiva do guitarrista, na impertinência funkeada do baixo, na selva de ritmos puxados pela batera e no vinho tinto do tango da vida do vocalista.

Capa do Disco 3, trabalho da banda Pimenta Buena

Disco 3, da banda Pimenta Buena (Imagem/Divulgação)

O Disco 3 começa com a instigante Del Lado De Afuera. Emoldurada por um arranjo intenso e por uma interpretação dramática, essa canção é positivamente diferente do som que as bandas do lado de cá da Linha do Equador costumam fazer. O começo praticamente narrado, o climão da melodia do refrão e o encerramento com som de chuva caindo, sem a menor dúvida, são elementos que transportam o ouvinte para a trilha de abertura de algum anime. Esse tipo de proposta sonora é louvável, pois faz pop rock caminhar longe da direção do “lugar comum”.

O romance adulto, que faz bem pra vida e sem trapaça pode ser encontrada nas fascinantes Invítame e Te vi llegar. Esta última conta com participação do músico Felipe Rotta, guitarrista da banda solo do icônico Humberto Gessinger, que arranjou a música com violão de 12, bandolim e violão de aço. Em ambas canções, as letras entregam uma mensagem pueril, leve e, sobretudo, mostram a capacidade técnica que a banda tem para desenvolver arranjos surpreendentes e diferentes entre si.

Outro ponto alto do disco é a faixa Isla Soledad, um tango rock que remete aos grandes momentos da discografia de ícones como do rock argentino, como, por exemplo, Charly García, Fito Paez e o saudoso Luis Alberto Spinetta. Esta canção é uma perfeita combinação do elevado nível da interpretação de Vicentti, que sabe como externalizar a dramaticidade do tango, com a riqueza dos arranjos [preste atenção no papel do violão ;)] elaborados por João. Já em  Dr Jekyll And Mr Hyde, o ambiente é conduzido por um rock moderno, cuja letra lida com as dualidades do ser humano rumo ao apogeu da vida adulta. Além da letra bem amarrada, coesa e impactante, essa canção tem como destaque o belíssimo solo de guitarra.

Por fim, mas não menos importante: que a Pimenta Buena é formada por músicos providos de um apuro técnico indiscutível, ninguém pode negar. Porém, com o Disco 3, essa banda independente faz algo que o mainstream do pop rock, infelizmente, não dá a importância devida: a conexão das brasilidades com o restante da América Latina, pois, sim, somos todos latinos! No final das contas, além de um álbum de rock que transita pela world music, o quarteto doble chapa faz de sua a música um instrumento para nos mostrar que a música é uma ponte entre culturas, pois, afinal, a música tem o papel de unir o que as outras coisas insistem em separar.