Na estrada desde o ano de 2012, a Dona Iracema é formada por Balaio (voz), Diegão Aprígio (vocal/contrabaixo), Anderson Gomes (vocal/guitarra) e Oscar Sampaio (vocal/bateria). No início, os caras faziam cover de Raimundos, um nome que dispensa qualquer tipo de apresentação. Tempos depois, vieram as composições próprias e uma nova identidade começou a se consolidar no grupo.

Com influências não só do rock/hardcore, mas também de ritmos regionais como o baião e forró, a banda se lançou no cenário musical com uma nova proposta, denominada Caatincore Iracemático, enfatizando um estilo próprio que mescla o rock e a música regional com apresentações performáticas.

Membros da banda Dona Iracema mostram lado irreverente em foto de divulgação

A irreverência faz parte do rock da Dona Iracema (Foto/Rafael Flores)

Em 2019, esses baianos arretados lançaram o disco Balbúrdia. Com 15 faixas autorais e algumas participações especiais, o trabalho foi produzido por André T. Os quatro membros da banda contribuíram para o surgimento do álbum, que nasceu por meio de ideias individuais, mas que foram coletivamente transformadas em música.

Membros da banda Dona Iracema posam sem roupas para a capa do disco Balbúrdia

Balbúrdia é um disco que resgata o espírito contestador do rock (Divulgação)

Volta Pra Casa João é o primeiro single – e que também ganhou videoclipe -, com participação do icônico baiano Luiz Caldas. A voz e a guitarra são características. “Luiz Caldas agregou a guitarra baiana que é a cara dele e da Bahia, trouxe tempero”, conta Oscar Sampaio. É uma música que soa antiga e moderna, com a sensibilidade de colocar pessoas da comunidade LGBT+, pois este detalhe dialoga diretamente com a letra da música.

A faixa Escuta Meu CD é um perfeito retrato dessa nossa era mais concreta do que romântica. Não quero com isso dizer que a música em questão é um manual de como conquistar o crush. Na real, essa canção prega o respeito pelo trabalho do artista que rala de sol a sol para ganhar a vida. E fica aí o recado: atenção, atores da indústria musical! Paguem melhor os músicos.

Por sua vez, Cara de Pau é um questionamento acerca de um dos piores defeitos do povo brasileiro: a arte de dar um jeitinho em tudo, ou seja, a famigerada Lei de Gerson. E fica no ar o questionamento: “com quantos paus se fazem um cidadão de bem?”, conforme diz um trechinho da letra. Ainda não descobri, mas esse rockão da Dona Iracema me deixa ainda mais pensativo sobre esse rolê.

Membros da banda banda baiana Dona Iracema posam em uma rua da cidade de São Paulo

Dona Iracema faz sua “Balbúrdia” nas ruas de São Paulo (Foto/Facebook)

Por fima, mas não menos importante: com o disco Balbúrdia, a Dona Iracema se firma como uma banda que faz um som autêntico, visceral e cheio de atitude. Definitivamente, não tem como passar por essas 15 músicas sem desenvolver/despertar o senso de autocrítica e da necessidade de exercer a cidadania.

Lá da dimensão astral chamada “Sociedade Alternativa”, Raul Seixas certamente está bebendo um vinho e vibrando com essa musicalidade vigorosa que emoldura as letras tão inteligentes que esses “novos baianos” entregam aos fãs de rock nacional. Se você ouvir por aí que o rock está em crise, fique sabendo que  Balaio, Diegão, Anderson e Oscar lançaram o disco que mostra que o rock é a crise.

Dito isso, só consigo mentalizar um mantra: por uma novíssima música brasileira com mais bandas do calibre da Dona Iracema.